12 de setembro de 2009

Cristianismo e democracia

A democracia tem um valor universal? Por que ela parece ser mais valorizada em algumas culturas e menos em outras? Essas são questões que se apresentam quando se examina a história mundial e se observa onde a democracia parece forte, onde ela se apresenta de forma mais frágil e onde ela nem sequer é objeto de desejo da maior parte da população.
Perguntas assim não podem ter respostas fáceis. De qualquer maneira, o filósofo francês Luc Ferry procura lançar alguma luz sobre o assunto. E, paradoxalmente para alguém que defende a filosofia como alternativa à religião, Ferry enxerga uma contribuição importante da moral cristã para o surgimento dos ideais democráticos.
Em seu livro "Aprender a viver: Filosofia para os novos tempos", Ferry, ex-ministro da Educação da França, faz um breve panorama histórico da filosofia e usa um capítulo para tratar da relação entre cristianismo e filosofia.
Ferry (p. 90) reconhece que o cristianismo trouxe, para o plano moral, ideias não gregas que são de uma espantosa modernidade:
"O mundo grego era basicamente aristocrático, um universo hierarquizado, no qual os melhores por natureza deviam, em princípio, estar 'acima', enquanto se reservavam aos menos bons os níveis inferiores. Não se esqueça de que a pólis grega se baseava na escravidão."
Em contraposição à visão tipicamente grega, o cristianismo surge com a noção de que a humanidade é uma só, de que os homens são todos iguais em dignidade, apesar das diferenças físicas e materiais que existam entre eles.
Segundo Ferry, os filósofos gregos tinham a convicção de que existe uma hierarquia natural dos seres, tal como existe uma hierarquia na natureza, resultante das desigualdades que existem entre todos os seres: uns mais inteligentes do que os outros, uns mais rápidos do que os outros, etc. Sob essa concepção, "alguns são naturalmente feitos para comandar, outros, para obedecer - e é por isso, aliás, que a vida política grega se adapta, sem dificuldade, à escravidão" (p. 92).
Para os cristãos, as desigualdades obviamente existem, mas não têm importância no plano moral: "Com o cristianismo, saímos do universo aristocrático para entrar no da 'meritocracia', quer dizer, num mundo que vai, inicialmente e antes de tudo, valorizar não as qualidades naturais de origem, mas o mérito que cada um desenvolve ao usá-las. Assim, saímos do mundo natural das desigualdades para entrar no mundo artificial, no sentido de que é construído por nós, da igualdade. Pois a dignidade dos seres humanos é a mesma para todos, quaisquer que sejam as desigualdades de fato, já que ela repousa, desde então, na liberdade e não mais nos talentos naturais."
Ferry enxerga nessas ideias cristãs uma força revolucionária que inspirou, em parte a Declaração dos Direitos do Homem, de 1789, e a concepção de democracia moderna: "Paradoxalmente, embora a Revolução Francesa seja por vezes fortemente hostil à Igreja, ela não deixa de dever ao cristianismo uma parte essencial da mensagem igualitária que vai contrapor ao Antigo Regime. Aliás, constatamos ainda hoje o quanto as civilizações que não conheceram o cristianismo têm dificuldade em dar à luz regimes democráticos, porque a ideia de igualdade, em especial, não é evidente para elas." (p. 94)
Assim, ainda que as religiões cristãs, em muitos momentos de sua história, tenham sido promotoras de massacres e justificado tantas desigualdades, o fato é que a moral cristã trouxe à cena, há dois mil anos, uma nova concepção de humanidade, que favoreceu, séculos e séculos depois, o surgimento da democracia moderna.

9 de maio de 2009

Um pouco de música

Nesta postagem, quero compartilhar com vocês algumas descobertas musicais recentes. Pouca gente no Brasil conhece os grupos de que vou falar, mas eles produzem música de alta qualidade, embora de difícil classificação na selva de adjetivos que tentam categorizar a diversidade musical contemporânea.

Lanterna - Trata-se de nome musical usado por Henry Frayne, um guitarrista norte-americano de mão cheia. Suas músicas, quase todas apenas instrumentais, criam uma suave atmosfera que se situa no meio do caminho entre a música ambiental e o rock. É um som diferente, tecido basicamente com guitarras e violões, quase sempre tocados pelo próprio Frayne, e que parecem feitas para servirem de trilha sonora para "road movies". Conheça um pouco mais a respeito de Lanterna no seu site ou na Amazon.

July Skies - Como classificar o som do grupo inglês July Skies? Alguns dizem que eles fazem "post rock", outros falam em "shoegaze"; há ainda quem os situe na música ambiental ou no "dream pop". O fato é que esse grupo, que já toca há doze anos, faz uma música delicada, com teclados, guitarras, violões e vocais distantes que criam um clima de encantadora melancolia. Os títulos das músicas já anunciam um lirismo mais contemplativo: "See Britain by Train", 'Distant Showers Sweep Across Norfolk Schools", "East Anglian Skies"... De fato, suas músicas procuram retratar o passado, a memória ("endless childhood summers") e a paisagem ("dappled sunlight through leaves") do interior da Inglaterra. O som do July Skies encontra similaridade em outro grupo inglês também pouco conhecido por aqui: o Epic45. Mais informações sobre o July Skies no seu site (de uma simplicidade espartana) ou na Amazon.

The Durutti Column - Com mais de 30 anos de estrada, Durutti Column tem seu nome derivado de um grupo anarquista espanhol que lutou contra o fascismo durante a Guerra Civil Espanhola. Assim como o New Order e o Joy Division, o Durutti Column nasceu em Manchester, Inglaterra. Sua música é classificada como "pós-punk", mas está mais perto da verdade quem diz que ela é precursora do gênero "chill out" (típico som de webradios como a Soma FM). Liderado por Vini Reilly, o grupo faz experiências musicais que tornam cada disco bem diferente do anterior. Predominam as faixas instrumentais, com teclados, guitarras, baixos e baterias, mas há músicas com vocais femininos ou masculinos em "background". O som do Durutti Column se aproxima às vezes do rock, às vezes da música ambiental contemporânea, mas quase sempre num clima de suavidade e melancolia que sabe ter lá a sua beleza. Saiba mais sobre a música desse grupo inglês consultando seu site , a Wikipedia ou a Amazon.

Músicas como as que esses grupos fazem são a trilha sonora de minhas reflexões e de minha produção escrita. E você, já pensou qual a trilha sonora de sua vida?

30 de dezembro de 2008

Uma miragem torna-se realidade em São Francisco de Paula

Os dicionários relacionam miragem com ilusão. Um viajante está morrendo de sede no meio do deserto e tem a nítida impressão de que ali adiante existe um oásis. Avança em direção ao lugar onde pensa haver água, mas descobre que não passa de uma ilusão de óptica: uma miragem.
Para quem gosta de livros, existe em São Francisco de Paula, na serra gaúcha, um oásis que tem o paradoxal nome de Miragem.
São Chico é minha cidade preferida na serra. Tem a vantagem de não parecer um shopping center como Gramado e Canela e ainda contar com o clima especial de montanha e a beleza dos campos de cima da serra. Mas também é verdade que São Chico lembra mais uma pacata cidade do interior do que uma cidade turística. Não há muitas opções gastronômicas nem culturais. Nesse cenário, surpreende encontrar uma livraria como a Miragem, que já virou um dos principais pontos turísticos da cidade. Não se trata de um empreendimento de gente de fora. É iniciativa de uma moradora da cidade, a professora Luciana Soares. Luciana pertence a um gênero raro de pessoas que conseguem ser sonhadoras e dar forma e vida a seus sonhos.
Só o prédio da livraria, localizada na avenida principal da cidade, já vale a visita. É uma construção que une tijolos e madeira, feita sob medida para abrigar a livraria, um café e um espaço para exposições (reconstrução de um prédio antigo da cidade). Todas as dependências foram construídas para permitir o acesso a pessoas com dificuldade de locomoção.
Quem pensa que ir à livraria é um programa para adultos logo vai se surpreender. O espaço para as crianças é maior do que o reservado ao público infantil em muitas das grandes livrarias de Porto Alegre. E o acervo diferenciado inclui livros, jogos e brinquedos que valorizam e desenvolvem a inteligência das crianças.
Para o público adulto, há um pouco de tudo. Só lamento que boa parte da livraria seja dedicada aos temas místicos, desde religiões até auto-ajuda. Meus interesses são outros, mas é preciso reconhecer que livros sobre esses assuntos atraem grandes públicos. Ainda assim, muitas estantes estão reservadas a outros temas como história, viagens, gastronomia, psicologia, educação, ciências, literatura brasileira e universal. Neste final de semana, adquiri lá O Erro de Descartes, de António Damásio, e O Relojoeiro Cego, de Richard Dawkins - obras que se situam no extremo oposto aos livros de auto-ajuda.
Se vocês amam os livros e forem à serra gaúcha, sugiro que não se limitem a Gramado ou Canela. Passem em São Francisco de Paula ou se hospedem lá (no Veraneio Hampel, no Hotel das Araucárias ou na Pousada do Engenho, por exemplo) e reservem uma ou duas horas para visitar esse oásis de cultura que se chama Miragem.

6 de dezembro de 2008

Escutar rádios de todo o mundo no celular

Eu não sei se você é, como eu, um aficcionado por rádio. Eu sou - desde que me conheço por gente. Cresci ouvindo noticiários e jornadas esportivas que minha mãe e meu pai acompanhavam num velho rádio a válvula, nos fins dos anos 60 e início dos anos 70. Quando adolescente, curti um pouco do FM, mas sempre me interessei mais pelo AM e pelas ondas curtas.
Aprendi a falar razoavelmente bem o espanhol de tanto escutar, à noite, rádios argentinas e uruguaias escondidas no dial. Além de jogar futebol e botão ou devorar livros, parte de minha infância e adolescência era dedicada à experiência de descobrir rádios bem distantes, seja nas ondas médias, seja nas ondas curtas. Não foi por acaso que, enquanto cursava a faculdade, decidi trabalhar numa rádio.
Quando as rádios começaram a transmitir pela internet, no final dos anos 90 e início deste século XXI, senti que a realidade superava o sonho. Como era possível escutar com som local rádios de lugares tão distantes como Luanda, Anchorage ou Adelaide? Logo me tornei um caçador de rádios na Internet, que escuto hoje muito menos do que gostaria em função de uma frenética e exaustiva rotina profissional.
Alguém poderia pensar: por que escutar rádios de outros países? Ora, há quem esteja longe de sua terra e sente vontade de acompanhar as emissoras de sua cidade. Não é o meu caso, que moro hoje na mesma cidade em que nasci. Minhas razões são outras: rádios de outros países são ótimas oportunidades para se aprender sobre lugares distantes e se familiarizar com outras línguas. Quem gosta de estudar outros idiomas e de conhecer outras culturas sabe do que estou falando.
Mas, apesar do incrível avanço tecnológico registrado em tão poucos anos, havia ainda uma fronteira a ser desbravada no universo das rádios via web: a mobilidade. Havia. A tecnologia 3G permitiu que esse novo limiar fosse rapidamente alcançado. As rádios do mundo inteiro podem estar agora na palma de nossa mão, em qualquer lugar, andando com a gente.
Aparelhos de diferentes marcas estão vindo equipados com programas que permitem sintonizar rádios dos mais diversos recantos da Terra. Por exemplo, a Nokia desenvolveu um programa chamado Nokia Internet Radio. Esse aplicativo já vem configurado para acessar cerca de 1500 rádios. Poucas são do Brasil. Quase mil são dos Estados Unidos. Há boas opções de rádios européias. O melhor: é possível acrescentar manualmente outras emissoras, bastando para isso que se informe o endereço da transmissão de áudio. O problema é que muitas rádios fazem suas transmissões usando um formato que somente pode ser lido pelo programa Windows Media Player, que não roda em aparelhos cujo sistema operacional é o Symbian, como é o caso do meu Nokia N95. Apesar disso, é possível escutar no meu celular emissoras como a Soma FM, com seus ambient beats, a Duna FM, do Chile, as diversas rádios locais da BBC, ou a WBBM, uma rádio de notícias de Chicago, entre tantas outras. Várias dessas emissoras transmitem em estéreo, com qualidade de CD. É possível andar pela casa escutando essas rádios sem que o sinal caia uma única vez. Mesmo no carro, o sinal se mantém como se fosse uma emissora local. No meu Nokia N95, é possível escutar as rádios pelos pequenos alto-falantes na lateral do aparelho. Até que o som é bastante bom para um aparelho celular: parece o áudio de um pequeno rádio FM. Há obviamente a opção do fone de ouvido, mas uma excelente opção é um dispositivo da Nokia que funciona como caixas de som portáteis conectadas com o celular por bluetooth: são as caixas de som Nokia MD-5W, do tamanho de um rádio portátil.

Com aparelhos assim, as rádios da internet se liberam dos computadores: andam conosco pela casa, podem nos acompanhar na hora de fazer a barba ou na mesa do café da manhã. Podem mesmo ser escutadas na caminhada matinal.
Há momentos em que todos nós precisamos de silêncio. Na verdade, necessitamos de mais silêncio do que nos concedemos em nossas vidas. Mas também é bom poder estar ligado ao mundo, é prazeroso descobrir como pensam pessoas de lugares distantes: quais são seus problemas, quais são suas soluções para esses problemas, o que nos aproxima deles, o que deles nos distancia, como expressam seus receios e desejos.
Os aparelhos celulares que permitem conexão com a internet em alta velocidade e os pacotes de dados ainda estão relativamente caros, mas é só pensar um pouco para perceber que em breve toda essa tecnologia vai estar bastante acessível a quase toda a população. Lembrem quem tinha celular em 1994 e vejam quem tem hoje: o barateamento e a conseqüente universalização desse tipo de tecnologia dependem apenas do tempo. Então a grande questão que ficará para cada um de nós é decidir com que finalidade vai usar (se é que vai querer usar) tanta tecnologia, tanta potencialidade. Eu vejo encanto em tudo isso e penso não estar sozinho.

9 de março de 2008

Hume e a fragmentação da consciência

Há exatamente 13 meses, eu publicava, ainda no Blog a Dois, um texto intitulado Pedaços. Hoje, volto a tocar no tema da fragmentação do tempo e da realidade, mas citando O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder. Ao tratar do filósofo David Hume, o personagem Alberto Knox explica para a jovem Sofia a idéia daquele filósofo escocês de que não existe unidade e constância em cada consciência:
"É falsa a sensação de que nossa personalidade possui um núcleo constante. Nossa noção de eu compõe-se, na verdade, de uma longa cadeia de impressões isoladas, que nunca conseguimos vivenciar simultaneamente. Hume fala de um 'feixe de diferentes conteúdos de consciência, que se sucedem numa rapidez inimaginável e que estão em constante fluxo e movimento'. Nossa mente seria, então, 'uma espécie de teatro', no qual estes diferentes conteúdos 'se sucedem em suas entradas e saídas de cena, e se misturam numa infinidade desordenada de posições e de tipos'. Para Hume, portanto, o homem não possui uma 'base' de personalidade, atrás ou abaixo da qual se desenrola a cena de que são atores as percepções e as sensações. É como as imagens numa tela de cinema: elas se alternam tão rapidamente que não vemos que o filme se compõe de imagens isoladas. Na verdade, essas imagens não estão conectadas. O filme é uma soma de instantes."
Hume viveu entre 1711 e 1776, mas não foi o primeiro a questionar a idéia de que é falsa a idéia de unidade que temos de nós mesmos. Hoje, pensar assim ainda parece bastante estranho e, com certeza, também incômodo. O que sobra de nós se, de fato, não existe um "eu" estável por detrás de cada pensamento? O que sobra do tempo se, de fato, não existe um fluxo contínuo, mas apenas fragmentos que nós, sem percebermos, colamos e transformamos em narrativa? Perguntas, meus amigos, perguntas - é só isso que eu posso lhes oferecer. Vocês têm as respostas?

9 de fevereiro de 2008

Um hotel com 109 anos

No início do século XX não existia Gramado, mas muitos porto-alegrenses ou leopoldenses subiam a serra para veranear, escapando do calor sufocante do verão. Da capital até São Francisco de Paula eram três dias de viagem em carreta de boi numa estrada de terra, freqüentemente embarrada. O destino de muitos era o Hotel Veraneio Hampel, onde os hóspedes, até pelas dificuldades de deslocamento, costumavam ficar por semanas. O hotel, criado em 1899, continua em funcionamento. Lá estão o lago, a cascata, as trilhas na mata, os centenários pinheiros e, de vez em quando, até os bugios. O hotel fica distante do centro de São Francisco de Paula e, por isso, hospedar-se nele é ganhar um terapêutico recolhimento. De 1899 para cá, Hampel foi reformado e ampliado, mas, mesmo assim, respira-se a história nos seus simples aposentos. Mantém-se um clima familiar, inexistente nos grandes e famosos hotéis de Gramado ou Canela. A comida caseira, de influência alemã, é saborosa e não deve ser muito diferente daquela que se provava há cinqüenta ou cem anos. À noite, o único som que se ouve é o do vento tocando as araucárias. E olhando as fotos antigas, expostas nas paredes do hotel, não é difícil imaginar que se está fazendo uma viagem no tempo, voltando cem anos atrás.

Abaixo, algumas fotos que mostram um pouco do passado e do presente desse hotel:








7 de fevereiro de 2008

Verdades

A busca pelo conhecimento tem seus encantos e seus perigos. Afinal, conhecimento é poder. Sem ele, não haveria a penicilina nem a bomba atômica. Mas há quem aponte justamente para os efeitos negativos da busca pelo conhecimento para mostrar que esse esforço carrega a semente do mal. Está no Gênesis: bastou Adão e Eva desejarem provar da árvore do conhecimento para serem expulsos do paraíso.

Não vou me deter, neste momento, nas sofisticadas engrenagens que movimentam a produção de novos conhecimentos científicos: as pesquisas de ponta muitas vezes estão a serviço, direta ou indiretamente, do poder econômico e político. Por isso, é importante não apenas saber o que a ciência nos traz de novo a cada momento, mas também descobrir como se faz ciência hoje: quem financia a pesquisa científica, com que propósitos? Também é preciso dizer que novos conhecimentos não são gerados apenas em laboratórios: viver é aprender; por isso, cada ser humano, mesmo que esteja apenas sonhando em sua cama agora, está criando novos saberes, relevantes ou não, compartilháveis ou não.

Neste espaço, hoje, vou me deter exclusivamente na cristalização do saber, no conhecimento que é tido como definitivo. Esse é um perigo tanto para cientistas como para qualquer cidadão. Sua manifestação mais típica ocorre no âmbito das idéias religiosas. Cada religião tende a ser a cristalização de um conjunto de idéias, transformadas em dogmas – e os dogmas, por definição, não podem ser questionados. Alguém diz: aqui está a verdade, e pronto – acabou todo e qualquer questionamento. Quem ousar questionar a verdade definitiva deve ser excluído – e essa exclusão, em alguns momentos da história e em alguns lugares ainda hoje, pode ir bem além da exclusão do convívio em um grupo, mas chegar à pena capital.

A humanidade gera novos conhecimentos a todo momento. O contínuo avanço do conhecimento representa, assim, uma ameaça a qualquer sistema de pensamento que se cristalizou. E o raciocínio dos líderes e seguidores da maioria das religiões é o seguinte: se a verdade está revelada, não há mais por que fazer questionamentos, não há por que continuar investigando. Todos sabem o que está acontecendo hoje nos Estados Unidos, onde milhões de pessoas não acreditam na Teoria da Evolução, apesar de todas as evidências construídas ao longo de quase dois séculos de pesquisas.

Todo e qualquer fundamentalismo (religioso ou científico) é hostil à investigação, à pesquisa, à reflexão. Ele implica uma postura regressiva ao se prender ao passado, seja esse passado um discurso religioso, seja uma teoria científica. Abrir-se a novos conhecimentos pode pôr em dúvida a verdade de ontem e de hoje, removendo o alicerce sobre o qual se construiu uma religião, uma cultura, uma teoria.

Se estamos de acordo até aqui, então chegamos à conclusão de que não se deve tomar nenhum conhecimento como sendo a verdade absoluta; precisamos continuamente questionar, duvidar, interrogar, reformular nossos saberes. Surge, então, uma questão: se nenhum conhecimento é absoluto, as pessoas não ficam sem uma referência que as ajude a separar o certo do errado, o falso do verdadeiro? Não há o risco de que as pessoas relativizem todos os saberes, escolhendo simplesmente o que melhor lhes convêm? Bem, isso de fato acontece hoje, mesmo entre aqueles que acreditam em verdades absolutas: cristãos têm a sua verdade; muçulmanos têm uma outra – e, muitas vezes na história, uns tentaram impor aos outros sua verdade. Numa sociedade multicultural, fica mais evidente que não existe uma, mas várias verdades “absolutas”.

Um desafio semelhante se verifica mesmo quando admitimos que não temos um conhecimento definitivo sobre o mundo, sobre a vida. Corre-se realmente o risco de colocar em pé de igualdade, por exemplo, o Criacionismo e a Teoria da Evolução. Eu vejo esse tipo de sincretismo acontecer a todo o momento. Pessoas cultas dizem acreditar em horóscopo e, quando alguém argumenta que não há nenhuma evidência científica que comprove a influência dos astros sobre o destino dos homens, elas alegam que a ciência é limitada e, parodiando Shakespeare, afirmam que há mais coisas entre o céu e a Terra do que podemos imaginar. O raciocínio dessas pessoas é bem simples: se não há verdade absoluta, tudo pode ser verdadeiro, mesmo que haja prova em contrário.

A superação dessa relativização extrema não é fácil e, creio, não esteja bem resolvida. Penso, particularmente, que nossa capacidade de discriminar entre uma boa e uma má explicação para os fatos depende do acesso a uma grande quantidade de informação, de diferentes fontes. Depende, igualmente, de se saber qual hipótese tem resistido melhor aos testes a que têm sido submetida. Porém, nada disso funciona sem que o indivíduo seja movido por um ceticismo radical, que interroga continuamente o mundo. A ciência, com todos os seus defeitos, têm esta virtude: ela é interrogação, ela é questionamento. Assim, se ela nada nos entrega de absoluto, pelo menos nos ajuda a escolher qual idéia, qual explicação pode assumir o status de “verdade provisória”. Hoje, por exemplo, a maioria dos cientistas acreditam que o universo foi criado a partir de uma explosão original, chamada de “Big Bang”. Não há unanimidade a esse respeito, mas o conjunto de evidências que os astrônomos têm obtido em suas pesquisas é favorável a essa explicação. Ainda assim, pode ser que, nos próximos dez ou vinte anos, sejam feitas novas descobertas que dêem força para outra teoria.

No campo da moral, o desafio é ainda maior quando se quer superar os riscos da relativização extrema ou do fundamentalismo. A maior parte dos princípios morais que regulam o funcionamento da sociedade têm uma base religiosa. Quase todas as religiões dizem que não se deve matar, que se deve ajudar aqueles que sofrem. Isso nos permitiria falar que existem princípios morais absolutos, universais? Penso que o melhor seria falar em princípios morais hegemônicos, pois há uma certa relatividade mesmo entre os fundamentalistas, que podem, num momento, condenar o assassinato de um concidadão, mas, logo depois, ver como “santa” a eliminação de inimigos.

É tentador aceitar que, no âmbito dos valores morais, haja verdades absolutas. Porém, onde estão os princípios universais que todos poderiam aceitar, independentemente de onde vivessem? Escolheríamos uma religião em detrimento de outras? Faríamos uma média entre elas? A impressão que eu tenho é de que os princípios de cada religião tendem a refletir o contexto de sua criação, correndo o risco de ficarem defasados com o passar do tempo ou com sua exportação para outros ambientes. É bastante comum que, em culturas onde as mulheres são discriminadas, as religiões privilegiem os homens nas suas regras morais alegando ser esta a vontade de Deus. Se tivermos que aceitar os princípios religiosos como absolutos, então as mulheres ficarão eternamente ocupando um papel secundário, sem chance de mudar uma condição que as prejudica? Se uma religião diz que os sacerdotes não podem se casar, assim será até o fim dos tempos?

Faço esses questionamentos para mostrar como essa é uma questão complexa, difícil de ser resolvida. Precisamos de princípios morais, mas temos de evitar tanto o risco de cristalizá-los quanto o de flexibilizá-los em demasia, a ponto de chegarmos a uma moral customizada, guiada apenas pelo pragmatismo – aliás, esse parece ser um retrato de uma parcela significativa da sociedade contemporânea. Lamento se vou decepcioná-los ao não oferecer uma resposta, mesmo que provisória. Eu não sei se a diversidade humana algum dia vai permitir que tenhamos um conjunto de princípios morais compartilhados efetivamente por todos. Sinto apenas que a moral deve ser sempre objeto de nossa investigação, assim como a origem do universo ou qualquer outro tema científico. E sei que, nessa investigação, devemos tomar cuidado para não chegarmos ao ponto de acreditarmos que toda e qualquer atitude é justificável ou, ao outro extremo, de acreditarmos que temos todas as respostas, não mais precisando fazer qualquer pergunta.

2 de setembro de 2007

Voyagers 1 e 2: 30 anos viajando no espaço

Duas naves espaciais voam há 30 anos, afastando-se gradualmente do Sistema Solar, mas ainda funcionam, estabelecendo comunicação com a Terra. As naves Voyager 1 e 2 foram lançadas em agosto e setembro de 1977 com o objetivo de fornecer informações sobre planetas como Júpiter, Saturno, Urano e Netuno.
Hoje a Voyager 2 está a 12,5 bilhões de quilômetros e a Voyager 1 a 15,5 bilhões de distância do Sol, numa região que marca a fronteira entre o Sistema Solar e o espaço interestelar. Ambas espaçonaves carregam instrumentos científicos que permitem estudar o vento solar, campos magnéticos e ondas de rádio enquanto cruzam por uma região do universo onde nenhum ser humano ou espaçonave jamais esteve.
As naves Voyager estão longe demais para usar energia solar. Elas consomem o equivalente a uma lâmpada de 300 watts e retiram sua energia de geradores termoelétricos de radioisótopos, uma espécie de bateria de longa duração. As Voyager estão tão longe da Terra que os comandos enviados pela NASA, mesmo viajando à velocidade da luz, demoram 14 horas para chegar até a Voyager 1 e 12 horas para alcançar a Voyager 2.
Ambas espaçonaves transportam uma cápsula do tempo com saudações, imagens e sons da Terra, incluindo orientações sobre como chegar ao nosso planeta, caso sejam recuperadas por alguma civilização extraterrestre. Por enquanto, elas seguem solitárias, na imensidão do espaço sideral. Um dia, daqui a alguns bilhões de anos, quando o Sistema Solar se desfizer, naves como as Voyager 1 e 2 provavelmente sejam os únicos registros de que houve um lugar chamado Terra e uma civilização humana. E eu fico me perguntando se haverá alguém que lerá as mensagens que lançamos em nosso infinito oceano-universo...
Maiores informações a respeito podem ser conferidas no site da NASA.

29 de junho de 2007

Cabo Verde

Sal, Maio, Fogo. Que sabemos nós de Cabo Verde?
Como podemos saber se não nos damos conta nem das vidas das pessoas que moram nos bairros e vilas ao nosso redor?
Depois de alguns anos, viajo para uma cidade próxima e sigo por uma estrada pela qual não andava há muitos anos, uma rodovia que corta os subúrbios de várias cidades da região metropolitana. Quase não acredito no que vejo. Onde antes havia campos e fazendas, agora há casas e mais casas, ruas e mais ruas, que se estendem para além de onde a vista alcança. Por alguns segundos, percebo um mundo que é muito maior do que minha mente e meu coração. Ali não há apenas casas e ruas: são milhares de consciências, com seus desejos, sonhos, temores e lembranças, milhares de pessoas que eu e tu solenemente ignoramos e para as quais igualmente não existimos. Elas vivem, como eu e tu. Elas existem.
Cabo Verde está tão longe... Quinhentos quilômetros separam o arquipélago da costa da África. A África estão tão longe... As 18 ilhas de Cabo Verde parecem perdidas no meio de um Atlântico que nos é puro desconhecimento. Fogo, Maio e Sal são os breves nomes de algumas das ilhas onde habitam cerca de 420 mil almas. Que sabemos deles?
Neste exato momento, fim de noite de domingo aqui, a madrugada de segunda flui lentamente sobre as áridas ilhas de Cabo Verde. Na imensidão da noite, na imensidão do Atlântico, Cabo Verde parece um sonho, um exercício de imaginação. Mas para a criança que acorda neste instante para tomar um copo d'água em Assomada, um pequeno povoado no interior da ilha de Santiago, nada é mais real que seu copo, sua casa, sua família, sua pobreza talvez, sua ilha. Para essa criança, eu e tu não existimos. Estamos muito além de sua consciência e de seu coração. Para bilhões de pessoas deste planeta, eu e tu não passamos de ilhas longínquas, quase imaginárias, perdidas no oceano da vida. Somos Cabo Verde.

6 de abril de 2007

Soma FM: uma rádio

Deve fazer uns seis anos que tenho banda larga e, nesse tempo, a rádio que mais sintonizo para escutar música é a Soma FM, mais especialmente um dos canais desse portal de rádios web com 24 horas de música sete dias por semana: a Groove Salad. Essa emissora se autodefine como sendo "a nicely chilled plate of ambient beats and grooves". Em minhas palavras, é uma rádio que toca um som ambiental contemporâneo que cobre a intersecção entre o new age, a música eletrônica, o rock progressivo, o groove. Não é, em geral, música para se dançar, mas música para se ouvir, para se degustar. Música que serve como a trilha sonora para o meu dia-a-dia.
É difícil encontrar, em lojas brasileiras, algum CD dos grupos que tocam nessa emissora: há desde neo-zelandezes (como o grupo Patio), italianos como The Dining Rooms até alemães como Ulrich Schnauss ou Barbara Morgenstern. Vale a pena também citar The Gentle People, Neotropic, Afterlife, Millenia Nova, Leggobeast, Lemongrass, Jens Buchert, Blackfish, The Verbrilli Sound, AKMusique e Marconi Union.
Há tanta coisa detestável no mundo real e no mundo digital neste início de milênio, mas poder escutar em São Leopoldo uma rádio assim, com som perfeito, embora ela se localize num subúrbio de San Francisco, na California, é uma das vantagens de se viver no século XXI.

18 de março de 2007

O Sul

Encanta-me o poema O Sul, de Jorge Luis Borges, escrito quando esse imortal escritor argentino começava sua carreira:

O SUL

De um dos pátios ter olhado
as antigas estrelas,
do banco da
sombra ter olhado
essas luzes dispersas
que minha ignorância não aprendeu a nomear
nem a ordenar em constelações,
ter sentido o círculo da água
na secreta cisterna,
o odor do jasmim e da madressilva,
o silêncio do pássaro adormecido,
o arco do saguão, a umidade
- essas coisas são, talvez, o poema.

Poema colhido no livro Fervor de Buenos Aires, originalmente publicado em 1923.

20 de fevereiro de 2007

Sobre a felicidade

Steven Pinker, em seu livro Como a mente funciona (Ed. Companhia das Letras, 1998), dedica algumas páginas (410 a 414) à questão da felicidade.
Ele cita dois psicólogos (David Myers e Ed Diener) que fizeram ampla pesquisa sobre a sensação de felicidade entre norte-americanos ao longo das últimas décadas:
E Myers e Diener observam: "Em comparação com 1957, os americanos possuem duas vezes mais carros por pessoa - além de fornos de microondas, televisores coloridos, videocassetes, aparelhos de ar condicionado, secretárias eletrônicas e 12 bilhões de dólares de tênis de marca novos por ano. Então, os americanos esstão mais felizes do que em 1957? Não estão."
Em um país industrializado, o dinheiro compra apenas um pouco da felicidade: a correlação entre riqueza e satisfação é positiva, porém pequena. Ganhadores de loteria, depois de passar a comoção da felicidade, retornam a seu estado emocional anterior. Do ângulo mais positivo, isso também acontece com pessoas que sofreram perdas terríveis, como paraplégicos e sobreviventes do Holocausto.
(...) O estudo da felicidade muitas vezes lembra um sermão pregando valores tradicionais. Os números demonstram que os felizes não são os ricos, privilegiados, saudáveis ou bem-apessoados; são os que têm cônjuge, amigos, religião e um trabalho instigante e significativo. Essas constatações podem ser exageradas, pois aplicam-se a médias, não a indivíduos, e porque é difícil desenredar causas e efeitos: ser casado pode fazer você feliz, mas ser feliz pode ajudá-lo a casar-se e manter-se casado. Mas Campbell (um pioneiro da psicologia evolucionista) fez eco a milênios de homens e mulheres sábios quando resumiu o resultado de sua pesquisa: "A busca direta da felicidade é uma receita para uma vida infeliz."
Penso no que dizem Pinker e Campbell e me despeço com uma pergunta: se eles têm razão, será que muitos de nós não teríamos de mudar o rumo de nossas vidas?
Até a próxima.

9 de fevereiro de 2007

Pedaços

Alimentamos a ilusão da continuidade. Observamos a natureza, e em tudo vemos coesão. Uma semente se transforma em broto, que se transforma em árvore. A fina areia do universo escoa em infinitas ampulhetas por bilhões de anos desde o BigBang... e então temos a Terra. Mais alguns bilhões de anos de evolução, e um organismo unicelular vai se diferenciando, ganhando complexidade, até transformar-se no homem. Pensamos sobre nossa existência e acreditamos existir uma linha conectando cada segundo de nossas vidas, não deixando nenhum momento de fora. As narrativas são assim: romances, filmes, novelas de televisão. Um fato conduz a outro. Causa e efeito. E, na mão de quem desenha a linha, um sentido – um propósito.
Nossos sentidos percebem continuidade. Nossa mente sente-se permanente: sou, essencialmente, o mesmo de um ano, de vinte anos atrás. É da percepção dessa continuidade que se forma nossa sensação de identidade. A vida não pode ser descontínua, pensamos. Meu pensar, meu sentir não podem ser fragmentados, pois, se assim fosse, quem seria eu, quem seríamos nós? Fragmentos que têm uma ilusão de unidade?
Mas é preciso considerar que a verdade segue seu próprio caminho, e não as auto-estradas que preparamos para ela. O fato de que nós sentimos e desejamos uma continuidade não significa que ela exista.
Nossa percepção de cores e sons é limitada pelos nossos sentidos: há cores e sons que nos escapam. A realidade, para cada um de nós, é moldada pelos nossos sentidos e nossos pensamentos. Nossa mente está programada para enxergar continuidade: não fosse assim, como conseguiríamos atravessar a rua ou dirigir um carro? Nós somos tempo: relógios que pensam. Consciência é tempo, tempo é continuidade.
Tentemos deixar momentaneamente nossas mentes de lado. É impossível, mas vamos fazer de conta. Tentemos enxergar o mundo sem nossos pensamentos e desejos... Talvez vislumbremos a possibilidade – “absurda, sem sentido”, diríamos todos nós em coro – de que cada instante é ele próprio, sem nenhum fio que o ligue ao instante anterior e ao próximo...
Sob essa perspectiva, que deixarás de lado tão logo termine de ler este texto, cada instante da minha e da tua vida é completo em si mesmo, não um pedaço que se liga a outros. Instantes soltos, que nascem e morrem antes de serem sentidos. A vida: uma fonte de instantes, brotando incessantemente – o paradoxo da contínua descontinuidade. Se for assim, cada um de nós é, sem saber, o narrador de sua própria vida, tentando incessantemente conectar um instante no outro, costurando-os com o fio de nossas esperanças e crenças. O grande (e inconsciente) propósito de nossas vidas seria, então, o de buscar continuamente que a junção desses fragmentos componha uma narrativa, dando às nossas existências um sentido de que precisamos ardentemente mas que não existe fora de nós.

12 de agosto de 2006

Garota ateniense

Houve, 2500 anos atrás, uma garota que nasceu, viveu e morreu em Atenas. Não há qualquer registro histórico de que tenha existido, mas a vida foi tão real para ela como é para ti agora. Aos dez anos, nossa garota brincava de boneca, aprendia a tecer, participava dos festivais religiosos, temia as guerras e à noite orava para a deusa Atena. Sua beleza e sua educação eram o orgulho de seus pais. Seu bom humor era a alegria da família. Posso imaginá-la de túnica branca e sandálias, com seu longo cabelo escuro e seus grandes olhos bebendo a vida, como Ifigênia em Áulis. Posso imaginá-la pensando que o tempo passava muito devagar nas quentes tardes do verão grego. Posso imaginá-la pensando no futuro, em como seria sua festa de casamento, nos filhos que teria. Posso também imaginar os sutis temores existenciais que a assaltavam vez que outra e que ela tentava desfazer na chama de sua politeísta fé.
Essa garota existiu. Seus pais, seus irmãos, seus tios, filhos, netos também existiram. Mas, vê só, tu nada sabes dela, ninguém nada sabe dela ou de sua família. Onde está seu túmulo? Onde está uma referência a ela num livro de história clássica? Nada sobrou de sua existência que tenha chegado à nossa consciência. É verdade que parte de suas cinzas se transformaram mais tarde em videiras, que se transformaram em uva, em vinho, que foi bebido por outra garota, que deu a luz a mais uma moça, num ciclo sem fim. É verdade que o que ela disse ou fez influenciou o pensamento ou o destino de muitas pessoas que com ela conviviam. Mas também é verdade que sua vida se perdeu na história, os rastros de sua existência foram se apagando ao passar de cada segundo, de cada minuto, sob o peso das ações e pensamentos de bilhões de seres humanos que nasceram e morreram depois dela.
Tu me perguntas o que tens a ver com essa menina. E eu te digo que talvez, daqui 2500 anos, tu sejas a garota ou o garoto cuja existência não passe de uma hipótese no raciocínio de gente especulando sobre a passagem do tempo. Pensando bem, não será toda a humanidade, daqui milhões ou bilhões de anos, também uma garota ateniense na história do universo?

5 de agosto de 2006

Sem nós

Nem eu nem tu existimos nesse mundo que gira em torno de uma distante estrela, perdida no espaço infinito, fora do alcance de qualquer telescópio. Há manhãs de sol de um tempo parecido com o nosso setembro. Há pássaros, nuvens, montanhas, chuvas, luas. A vida corre nesse mundo, alheia à nossa existência. Segue ela sem o controle remoto de nossa consciência, sem review, sem forward.
Uma árvore projeta sua sombra sobre um gramado ao sol do meio-dia, mas ninguém está lá para ver nem árvore nem sombra. E no entanto elas existem tão concretamente como a cadeira em que tu te sentas agora. O vento acaricia as folhas da árvore solitária, mas não há ninguém para escutar o doce murmúrio desse suave contato. Não há idéia de árvore. Há apenas árvore. Não há sensação de vento. Apenas vento.
Também não há vitória ou derrota, ambição ou humildade, desejo ou resistência. Há apenas vida, sem mim, sem ti. Vida sem nós.

11 de junho de 2006

Mais uma segunda?

Como se fosse sereno, a noite vai se depositando lentamente sobre as casas, as árvores e as ruas . Não são seis horas ainda, mas já se podem ver estrelas entre as cinzentas nuvens de um domingo frio de quase inverno. Há beleza no momento, mas tua mente se desloca do presente para o futuro e diz que amanhã a roda do tempo faz mais uma volta: será de novo segunda-feira. As luzes dos postes vão se acendendo agora como se acenderam ontem mais ou menos na mesma hora. É quase inverno, como era quase inverno um ano atrás. É verdade: um domingo termina, como há uma semana. Mas amanhã não voltaremos a viver o que já vivemos. Em meio à ilusão de um tempo circular, como o movimento da Terra em torno do Sol, há a realidade de um tempo que jamais retorna, que segue do desconhecido para o desconhecido e nos encontra como o vento encontra a folha de uma árvore perdida no meio de seu caminho. Talvez haja algum conforto na idéia de um tempo circular, talvez ela nos dê a ilusão de conhecer o dia seguinte, nos permitindo dizer simplesmente que é outra segunda, e dar de ombros... Será mesmo assim? Tua vida e minha vida seguem em frente a cada dia, desde que nascemos. O tempo segue sua trajetória e nos leva, não em círculos, mas à frente, sempre à frente, em direção ao desconhecido. Esse contínuo fluxo transporta a minha e a tua vida, e mesmo a vida da criança que acabou de nascer. Eu não quero te entristecer se vens aqui buscar alguma espécie de ajuda. Não, eu não quero te dar nuvens quando queres sol, mas não posso deixar de descrever o que vejo. Talvez o que eu tenha para te dizer não seja o que gostarias de ouvir, mas eu te digo com carinho: apesar de todas as incertezas, da insegurança que se esconde por detrás de qualquer crença, vejo beleza em seguir o fluxo do tempo, em beber o tempo como quem sorve a pouca água do único cantil que se tem no meio de um deserto sem oásis. Há beleza em ser folha levada pelo vento, em poder ser uma vida num universo que, indiferente às vontades humanas, é só pergunta, é só mistério.
E se me perguntas qual o sentido de tudo isso, é claro que eu não consigo encontrar resposta - o que não significa afirmar a ausência de sentido. Tenho comigo, porém, um pouco de talvez: sim, talvez não devamos ficar buscando o sentido da vida, mas atribuir um sentido às nossas vidas.
Nesse meio tempo, a noite que caía tomou conta de tudo. As nuvens se dissiparam, e a escuridão de um espaço pontilhado de estrelas é o manto que cobre nossas inquietações e esperanças.

27 de maio de 2006

Lugares e momentos

Lugares e momentos para se contemplar:
- A madrugada ensolarada de final de junho em Tromso, na Noruega.
- As pessoas e as casas num meio de tarde em Antananarivo, capital de Madagascar.
- Um eclipse total de sol, como o que eu vivi em Santa Catarina, em novembro de 1994.
- O silêncio e a imensidão dos Andes, a 3200 metros de altura, perto de Santiago do Chile.
- Uma chuva de meteoros riscando o escuro céu de um recanto afastado, em Lomba Grande.
- O Monte Wellington impondo sua presença sobre Hobart, a capital da Tasmânia.
- Um cometa com majestosa cauda, visível a olho nu, mesmo numa grande cidade, como o Halley de 1910.
- O tradicional nevoeiro se dissipando na manhã de Walvis Bay, na costa da Namíbia.
- A pacata vida matinal de Vélez Rubio, perdida entre Granada e Alicante, na Espanha.
- O suave vento que percorre o deserto vermelho das planícies marcianas.

2 de abril de 2006

Um pouco de poesia e mistério

O silêncio do início de uma noite de domingo nas ruas de meu bairro pode ser eloqüente, dependendo do apuro de meus sentidos, da quietude de minha mente. Em início de abril já é noite às sete horas: resta uma tênue claridade, que rapidamente vai se apagando no poente. Estrelas de outono começam a aparecer silenciosamente. Árvores nas calçadas, sob a mortiça luz dos postes, projetam sombras que conferem um tom de irrealidade ao aqui e ao agora. Nem tudo se pode ver, e o conhecido ganha tons de mistério. De vez em quando um carro cruza o silêncio, que se refaz em segundos, tão logo o som do motor se dissolve entre o sussurro das folhas das árvores, levemente agitadas pelo vento que sopra do mar. Há casas com pessoas; há casas vazias; passando por elas, uma mente que de repente silencia e se abre para a poesia e o mistério que está ali, onde menos se espera. Por alguns instantes, existe apenas contemplação.

17 de março de 2006

Saber o futuro

Amigos e amigas, depois de longa ausência, volto a esse oceano virtual em que temos a ilusão de nos encontrar.
O que pensas do futuro? Ele te preocupa? Queiras ou não, tens em ti a consciência humana, que nos faz ver para além ou para aquém do agora. Graças a ela, o presente momento quase nunca é inteiro: parte da nossa mente está sempre enredada nas teias do passado ou tateando as incertezas do futuro.
Por uns momentos, deixemos o passado um pouco de lado, fiquemos apenas com o futuro. Mantemos com ele uma relação ambivalente: frente a um agora sombrio, a esperança no futuro nos consola; porém, o receio do que poderá acontecer amanhã pode nublar o céu azul que nos cobre neste momento. Alguns são menos sensíveis às incertezas da vida, mas muitos de nós - e talvez tu estejas entre eles - se preocupam por não saberem como serão os próximos dez anos ou mesmo como será o dia de amanhã.
As preocupações são criativas e vivem de mãos dadas com a imaginação. Talvez já tenhas pensado em como seria bom saber o que vem lá à frente. Não digo cogitar, digo saber: ter a certeza. Se vieste comigo até aqui, avancemos um pouco mais: imagina que soubesses tudo a priori: cada segundo de tua vida futura conhecido da mesma forma como todos os segundos já vividos por ti. Seria uma vida sem prazeres inesperados, mas também sem frustrações. Ela estaria toda em tua mente, como uma biografia que lemos e relemos até sabermos de cor. Mas, pense bem, antes de sonhar em ter todo esse poder... O futuro apareceria para ti como uma montanha de pedra, imóvel, surdo a todos os apelos para que fosse diferente. O presente continuaria impuro, pois o amanhã estaria sempre em tua mente, não como cogitação, mas como certeza.
Ser humano, ou seja, ter consciência, é a grande tragédia, mas também o grande desafio de cada um de nós. Eis aí a grandeza da humanidade, condenada a poder conceber as mais engenhosas utopias e ao mesmo tempo obrigada a conviver inexoravelmente com os limites do agora e as dúvidas acerca do amanhã.
É por isso que eu te digo: é melhor ser simplesmente humano e viver a beleza de tentar moldar o futuro, de consegui-lo algumas vezes, de se decepcionar outras tantas. Fazendo isso, talvez possamos ver o encanto e o mistério de viver uma história que é escrita à medida que é vivida, uma história que é tanto mais heróica quanto menos garantias temos do que vem à frente.

3 de dezembro de 2005

A altura das grades

O presente vai tomando conta da gente, e o passado se desfaz em denso nevoeiro. O real se transforma aos poucos em lenda, em mito. Parece que estamos vivendo em 1984, de Orwell, onde o passado era moldado conforme os interesses do poder, e as pessoas já não mais conseguiam se lembrar se a vida estava melhor ou pior do que há dez ou vinte anos.
O presente se impõe como verdade.
Porém, algo estranho acontece. Caminho pelas silenciosas ruas de meu bairro e de repente me surpreendo com a altura das grades. Lembro subitamente de um esquecido tempo em que podíamos nos sentar na frente de nossas casas. As famílias colocavam as cadeiras nas calçadas e ficavam até tarde conversando sob a luz fraca dos postes nas quentes noites de verão. Não me lembro de grades naquele tempo. Muros, sim. Mas baixos. Não me lembro de medo. Esse tempo existiu realmente? Parece uma ilusão, o desgastado mito da idade de ouro. Mas, contra todas as evidências, minha memória resgata lembranças de uma prosaica utopia que acredito ter vivido.
As trevas não chegaram subitamente. Não houve um dia em que, por decreto, as pessoas se trancaram em suas casas. Não. O perigo foi entrando sorrateiramente em nossas vidas e, com a mesma naturalidade com que aceitamos o frio do inverno, acabamos nos acostumando com a idéia de ficar trancados dentro de nossas casas. As grades foram crescendo em volta de nós como o capim depois da chuva, silenciosamente. Hoje, contemplando o presente com a memória do passado, supreendo-me não apenas com a altura dessas pontiagudas estruturas de ferro, mas especialmente com o fato de que elas se tornaram apenas um dos muitos recursos para tentar manter distante a violência. Acima das grades, cercas eletrificadas. Nas casas, sofisticados sistemas de alarme. Nas calçadas, guaritas com vigilantes particulares. Nas ruas, carros das equipes de segurança privadas. Volto trinta anos no tempo e me dou conta de que não era nada assim. Como esperávamos que fosse o ano 2000? Como seria 2020? Estaria o mundo se preparando para uma nova era? Agora vivemos 2005, o presente nada mais é do que o futuro de outrora, e eu me constranjo em anunciar para os fantasmas do passado que não há boas novas: para crentes e descrentes, não são bênçãos que descem dos céus, mas o medo, que se precipita lentamente sobre nossas casas e vidas como o sereno de uma eterna madrugada.
Crianças e adolescentes crescem nesse cenário e devem pensar que sempre foi assim. Hoje, nós olhamos para as casas e nem reparamos nas grades que as separam das ruas; olhamos para as ruas e nem cogitamos da possibilidade de nos sentarmos nas calçadas, de caminharmos sob o manto das estrelas. O passado se transforma lentamente em ilusão, e a lembrança de outros tempos soa como uma espécie de senilidade.
Caminho sob a luz do sol nas silenciosas ruas de meu bairro. Vejo belas casas. Há jardins, alguns sabiás, raros carros passando. Mas eu me pergunto quanto mais as grades terão de crescer para percebermos que tomamos um caminho errado no passado. Não, não era esse o futuro com que sonhávamos!

6 de novembro de 2005

Viver na China

São sete da tarde em São Leopoldo, cinco da manhã em Shanghai. Aqui, primavera; lá, outono. Embora a China freqüente as páginas dos nossos jornais e revistas graças a seu espantoso crescimento econômico, pouco sabemos sobre como vivem as pessoas que estão no centro ou à margem desse desenvolvimento.
Tenho informações de que, lá, os operários trabalham 12 horas por dia, sete dias por semana, folgando apenas nos feriados e recebendo salários entre 50 e 100 dólares mensais. A atividade sindical é proibida, e aqueles que ousam fazer as mais singelas reivindicações são condenados a vários anos de prisão. Um único partido governa o país, a imprensa e a internet são censuradas. O comunismo aliou-se ao capitalismo: do comunismo, permaneceu a ditadura opressora; o capitalismo da China, por sua vez, lembra aquele do início da Revolução Industrial. Por tudo isso, não deve nos surpreender que grandes empresas do mundo todo estejam se transferindo para a China: o custo da produção é muito mais baixo num país em que, por uns poucos dólares, trabalha-se de sol a sol todos os dias da semana e onde o progresso econômico permite agressões ao meio ambiente que não são mais toleradas na maior parte do planeta. Numa economia globalizada, o milagre econômico chinês faz evaporar postos de trabalho no Brasil e em muitos outros países onde o capitalismo precisa conviver com direitos trabalhistas e legislações ambientais. Tudo indica que vai demorar muito para os chineses conhecerem a democracia, pois os ventos da liberdade colocariam em risco o lucro fácil que o capital internacional busca na China.
Para além dos fatos e das opiniões, mantém-se minha curiosidade sobre a vida daqueles que vivem nesse cenário de transformações. Procurei, nos últimos dias, livros sobre a China e encontrei publicações de dois tipos: livros que louvam o milagre econômico chinês e arriscam apresentá-lo como modelo para outras nações (ai de nós!) e livros que apresentam relatos de viagem feitas dez ou vinte anos atrás, precocemente envelhecidos frente a tão aceleradas mudanças. Foi em blogs que consegui encontrar outros olhares sobre a China: é verdade que são visões de estrangeiros, mas pelo menos são olhares contemporâneos, críticos, de gente que está lá, respirando o ar do Oriente. Um repórter do jornal francês Liberation, Pierre Haski, mantém um interessante blog jornalístico sobre a China, Mon journal de Chine - finalista de um concurso da Deutsche Welle sobre os melhores blogs jornalísticos em várias línguas. Um olhar prosaico da vida de um estrangeiro em Pequim pode ser encontrado em China Life Blog, criação de um jovem professor norte-americano, Shawn Matthews, que está há poucos meses trabalhando em uma escola na capital chinesa e conta, com textos e muitas fotos, seu dia-a-dia naquela cidade. Também recomendo um passeio pelo China Blog List.com, site com links para blogs sobre a China. Ainda estou à procura de blogs escritos por chineses em alguma língua que eu possa entender.
Para além das barreiras lingüísticas e da minha preocupação com a perversa aliança chinesa entre comunismo e capitalismo, tenho de reconhecer que é fantástico o potencial dos blogs: se conseguimos separar o joio do trigo, podemos ter contato com uma riqueza de experiências e opiniões que há pouco tempo não iam além de um estreito círculo de relacionamentos e agora se abrem para o mundo. Seria bom poder acreditar que a multiplicação e descentralização dos canais de comunicação ajudarão as causas da liberdade e da igualdade, aqui ou na China. Porém, a história da humanidade parece nos dizer que é mais recomendável um ceticismo com pitadas de esperança do que um idealismo que nega a realidade. Boa noite, Brasil. Bom dia, China.

30 de outubro de 2005

O domingo e a segunda

É um domingo à noite, a cidade começa a dormir sem poesia ou talvez com os rastros da poesia que agora se dissolve em tua mente. A segunda-feira está logo ali, à espreita, e eu não sei o que esperas dela ou o que ela te reserva. As segundas costumam ter solidez de muralha frente aos devaneios dominicais. O ciclo de uma semana abriga toda a vida. A sexta à noite é cheia de perspectivas; é o começo de um tempo em que se tem alguma liberdade; é momento de pensar em fugas, em revoluções, em utopias. A segunda-feira consome os sonhos ou os coloca em suspensão; uma poderosa e impessoal estrutura entra em ação definindo a posição de cada um no mecanismo que faz o mundo girar. É dessa posição que se fala; é nessa posição que se age... até as dezoito horas da sexta, quando o ciclo se completa, com novas perspectivas voltando a ser vislumbradas enquanto a silenciosa máquina aguarda nossa resignada abdicação das segundas-feiras. A roda vai girando sem parar, semana após semana: um pouco de sonho, muita realidade, leveza de sonho, o peso da realidade... Presos nesse círculo, eu e tu suportamos a aspereza das segundas-feiras não apenas porque enxergamos lá à frente a suavidade das horas do começo de um outro final de semana, mas especialmente porque nada vemos além da roda em que giramos.