Como se fosse sereno, a noite vai se depositando lentamente sobre as casas, as árvores e as ruas . Não são seis horas ainda, mas já se podem ver estrelas entre as cinzentas nuvens de um domingo frio de quase inverno. Há beleza no momento, mas tua mente se desloca do presente para o futuro e diz que amanhã a roda do tempo faz mais uma volta: será de novo segunda-feira. As luzes dos postes vão se acendendo agora como se acenderam ontem mais ou menos na mesma hora. É quase inverno, como era quase inverno um ano atrás. É verdade: um domingo termina, como há uma semana. Mas amanhã não voltaremos a viver o que já vivemos. Em meio à ilusão de um tempo circular, como o movimento da Terra em torno do Sol, há a realidade de um tempo que jamais retorna, que segue do desconhecido para o desconhecido e nos encontra como o vento encontra a folha de uma árvore perdida no meio de seu caminho. Talvez haja algum conforto na idéia de um tempo circular, talvez ela nos dê a ilusão de conhecer o dia seguinte, nos permitindo dizer simplesmente que é outra segunda, e dar de ombros... Será mesmo assim? Tua vida e minha vida seguem em frente a cada dia, desde que nascemos. O tempo segue sua trajetória e nos leva, não em círculos, mas à frente, sempre à frente, em direção ao desconhecido. Esse contínuo fluxo transporta a minha e a tua vida, e mesmo a vida da criança que acabou de nascer. Eu não quero te entristecer se vens aqui buscar alguma espécie de ajuda. Não, eu não quero te dar nuvens quando queres sol, mas não posso deixar de descrever o que vejo. Talvez o que eu tenha para te dizer não seja o que gostarias de ouvir, mas eu te digo com carinho: apesar de todas as incertezas, da insegurança que se esconde por detrás de qualquer crença, vejo beleza em seguir o fluxo do tempo, em beber o tempo como quem sorve a pouca água do único cantil que se tem no meio de um deserto sem oásis. Há beleza em ser folha levada pelo vento, em poder ser uma vida num universo que, indiferente às vontades humanas, é só pergunta, é só mistério.
E se me perguntas qual o sentido de tudo isso, é claro que eu não consigo encontrar resposta - o que não significa afirmar a ausência de sentido. Tenho comigo, porém, um pouco de talvez: sim, talvez não devamos ficar buscando o sentido da vida, mas atribuir um sentido às nossas vidas.
Nesse meio tempo, a noite que caía tomou conta de tudo. As nuvens se dissiparam, e a escuridão de um espaço pontilhado de estrelas é o manto que cobre nossas inquietações e esperanças.
Este espaço é uma continuação do Blog a Dois. Aqui, você encontra reflexões sobre temas variados, dos mais prosaicos aos mais abstratos. No simples ou no complexo, um raciocínio básico: é preciso buscar a verdade, mas ter a humildade de reconhecer que ela está em constante transformação. Ter a verdade nas mãos é perdê-la.
11 de junho de 2006
27 de maio de 2006
Lugares e momentos
Lugares e momentos para se contemplar:
- A madrugada ensolarada de final de junho em Tromso, na Noruega.
- As pessoas e as casas num meio de tarde em Antananarivo, capital de Madagascar.
- Um eclipse total de sol, como o que eu vivi em Santa Catarina, em novembro de 1994.
- O silêncio e a imensidão dos Andes, a 3200 metros de altura, perto de Santiago do Chile.
- Uma chuva de meteoros riscando o escuro céu de um recanto afastado, em Lomba Grande.
- O Monte Wellington impondo sua presença sobre Hobart, a capital da Tasmânia.
- Um cometa com majestosa cauda, visível a olho nu, mesmo numa grande cidade, como o Halley de 1910.
- O tradicional nevoeiro se dissipando na manhã de Walvis Bay, na costa da Namíbia.
- A pacata vida matinal de Vélez Rubio, perdida entre Granada e Alicante, na Espanha.
- O suave vento que percorre o deserto vermelho das planícies marcianas.
- A madrugada ensolarada de final de junho em Tromso, na Noruega.
- As pessoas e as casas num meio de tarde em Antananarivo, capital de Madagascar.
- Um eclipse total de sol, como o que eu vivi em Santa Catarina, em novembro de 1994.
- O silêncio e a imensidão dos Andes, a 3200 metros de altura, perto de Santiago do Chile.
- Uma chuva de meteoros riscando o escuro céu de um recanto afastado, em Lomba Grande.
- O Monte Wellington impondo sua presença sobre Hobart, a capital da Tasmânia.
- Um cometa com majestosa cauda, visível a olho nu, mesmo numa grande cidade, como o Halley de 1910.
- O tradicional nevoeiro se dissipando na manhã de Walvis Bay, na costa da Namíbia.
- A pacata vida matinal de Vélez Rubio, perdida entre Granada e Alicante, na Espanha.
- O suave vento que percorre o deserto vermelho das planícies marcianas.
2 de abril de 2006
Um pouco de poesia e mistério
O silêncio do início de uma noite de domingo nas ruas de meu bairro pode ser eloqüente, dependendo do apuro de meus sentidos, da quietude de minha mente. Em início de abril já é noite às sete horas: resta uma tênue claridade, que rapidamente vai se apagando no poente. Estrelas de outono começam a aparecer silenciosamente. Árvores nas calçadas, sob a mortiça luz dos postes, projetam sombras que conferem um tom de irrealidade ao aqui e ao agora. Nem tudo se pode ver, e o conhecido ganha tons de mistério. De vez em quando um carro cruza o silêncio, que se refaz em segundos, tão logo o som do motor se dissolve entre o sussurro das folhas das árvores, levemente agitadas pelo vento que sopra do mar. Há casas com pessoas; há casas vazias; passando por elas, uma mente que de repente silencia e se abre para a poesia e o mistério que está ali, onde menos se espera. Por alguns instantes, existe apenas contemplação.
17 de março de 2006
Saber o futuro
Amigos e amigas, depois de longa ausência, volto a esse oceano virtual em que temos a ilusão de nos encontrar.
O que pensas do futuro? Ele te preocupa? Queiras ou não, tens em ti a consciência humana, que nos faz ver para além ou para aquém do agora. Graças a ela, o presente momento quase nunca é inteiro: parte da nossa mente está sempre enredada nas teias do passado ou tateando as incertezas do futuro.
Por uns momentos, deixemos o passado um pouco de lado, fiquemos apenas com o futuro. Mantemos com ele uma relação ambivalente: frente a um agora sombrio, a esperança no futuro nos consola; porém, o receio do que poderá acontecer amanhã pode nublar o céu azul que nos cobre neste momento. Alguns são menos sensíveis às incertezas da vida, mas muitos de nós - e talvez tu estejas entre eles - se preocupam por não saberem como serão os próximos dez anos ou mesmo como será o dia de amanhã.
As preocupações são criativas e vivem de mãos dadas com a imaginação. Talvez já tenhas pensado em como seria bom saber o que vem lá à frente. Não digo cogitar, digo saber: ter a certeza. Se vieste comigo até aqui, avancemos um pouco mais: imagina que soubesses tudo a priori: cada segundo de tua vida futura conhecido da mesma forma como todos os segundos já vividos por ti. Seria uma vida sem prazeres inesperados, mas também sem frustrações. Ela estaria toda em tua mente, como uma biografia que lemos e relemos até sabermos de cor. Mas, pense bem, antes de sonhar em ter todo esse poder... O futuro apareceria para ti como uma montanha de pedra, imóvel, surdo a todos os apelos para que fosse diferente. O presente continuaria impuro, pois o amanhã estaria sempre em tua mente, não como cogitação, mas como certeza.
Ser humano, ou seja, ter consciência, é a grande tragédia, mas também o grande desafio de cada um de nós. Eis aí a grandeza da humanidade, condenada a poder conceber as mais engenhosas utopias e ao mesmo tempo obrigada a conviver inexoravelmente com os limites do agora e as dúvidas acerca do amanhã.
É por isso que eu te digo: é melhor ser simplesmente humano e viver a beleza de tentar moldar o futuro, de consegui-lo algumas vezes, de se decepcionar outras tantas. Fazendo isso, talvez possamos ver o encanto e o mistério de viver uma história que é escrita à medida que é vivida, uma história que é tanto mais heróica quanto menos garantias temos do que vem à frente.
O que pensas do futuro? Ele te preocupa? Queiras ou não, tens em ti a consciência humana, que nos faz ver para além ou para aquém do agora. Graças a ela, o presente momento quase nunca é inteiro: parte da nossa mente está sempre enredada nas teias do passado ou tateando as incertezas do futuro.
Por uns momentos, deixemos o passado um pouco de lado, fiquemos apenas com o futuro. Mantemos com ele uma relação ambivalente: frente a um agora sombrio, a esperança no futuro nos consola; porém, o receio do que poderá acontecer amanhã pode nublar o céu azul que nos cobre neste momento. Alguns são menos sensíveis às incertezas da vida, mas muitos de nós - e talvez tu estejas entre eles - se preocupam por não saberem como serão os próximos dez anos ou mesmo como será o dia de amanhã.
As preocupações são criativas e vivem de mãos dadas com a imaginação. Talvez já tenhas pensado em como seria bom saber o que vem lá à frente. Não digo cogitar, digo saber: ter a certeza. Se vieste comigo até aqui, avancemos um pouco mais: imagina que soubesses tudo a priori: cada segundo de tua vida futura conhecido da mesma forma como todos os segundos já vividos por ti. Seria uma vida sem prazeres inesperados, mas também sem frustrações. Ela estaria toda em tua mente, como uma biografia que lemos e relemos até sabermos de cor. Mas, pense bem, antes de sonhar em ter todo esse poder... O futuro apareceria para ti como uma montanha de pedra, imóvel, surdo a todos os apelos para que fosse diferente. O presente continuaria impuro, pois o amanhã estaria sempre em tua mente, não como cogitação, mas como certeza.
Ser humano, ou seja, ter consciência, é a grande tragédia, mas também o grande desafio de cada um de nós. Eis aí a grandeza da humanidade, condenada a poder conceber as mais engenhosas utopias e ao mesmo tempo obrigada a conviver inexoravelmente com os limites do agora e as dúvidas acerca do amanhã.
É por isso que eu te digo: é melhor ser simplesmente humano e viver a beleza de tentar moldar o futuro, de consegui-lo algumas vezes, de se decepcionar outras tantas. Fazendo isso, talvez possamos ver o encanto e o mistério de viver uma história que é escrita à medida que é vivida, uma história que é tanto mais heróica quanto menos garantias temos do que vem à frente.
3 de dezembro de 2005
A altura das grades
O presente vai tomando conta da gente, e o passado se desfaz em denso nevoeiro. O real se transforma aos poucos em lenda, em mito. Parece que estamos vivendo em 1984, de Orwell, onde o passado era moldado conforme os interesses do poder, e as pessoas já não mais conseguiam se lembrar se a vida estava melhor ou pior do que há dez ou vinte anos.
O presente se impõe como verdade.
Porém, algo estranho acontece. Caminho pelas silenciosas ruas de meu bairro e de repente me surpreendo com a altura das grades. Lembro subitamente de um esquecido tempo em que podíamos nos sentar na frente de nossas casas. As famílias colocavam as cadeiras nas calçadas e ficavam até tarde conversando sob a luz fraca dos postes nas quentes noites de verão. Não me lembro de grades naquele tempo. Muros, sim. Mas baixos. Não me lembro de medo. Esse tempo existiu realmente? Parece uma ilusão, o desgastado mito da idade de ouro. Mas, contra todas as evidências, minha memória resgata lembranças de uma prosaica utopia que acredito ter vivido.
As trevas não chegaram subitamente. Não houve um dia em que, por decreto, as pessoas se trancaram em suas casas. Não. O perigo foi entrando sorrateiramente em nossas vidas e, com a mesma naturalidade com que aceitamos o frio do inverno, acabamos nos acostumando com a idéia de ficar trancados dentro de nossas casas. As grades foram crescendo em volta de nós como o capim depois da chuva, silenciosamente. Hoje, contemplando o presente com a memória do passado, supreendo-me não apenas com a altura dessas pontiagudas estruturas de ferro, mas especialmente com o fato de que elas se tornaram apenas um dos muitos recursos para tentar manter distante a violência. Acima das grades, cercas eletrificadas. Nas casas, sofisticados sistemas de alarme. Nas calçadas, guaritas com vigilantes particulares. Nas ruas, carros das equipes de segurança privadas. Volto trinta anos no tempo e me dou conta de que não era nada assim. Como esperávamos que fosse o ano 2000? Como seria 2020? Estaria o mundo se preparando para uma nova era? Agora vivemos 2005, o presente nada mais é do que o futuro de outrora, e eu me constranjo em anunciar para os fantasmas do passado que não há boas novas: para crentes e descrentes, não são bênçãos que descem dos céus, mas o medo, que se precipita lentamente sobre nossas casas e vidas como o sereno de uma eterna madrugada.
Crianças e adolescentes crescem nesse cenário e devem pensar que sempre foi assim. Hoje, nós olhamos para as casas e nem reparamos nas grades que as separam das ruas; olhamos para as ruas e nem cogitamos da possibilidade de nos sentarmos nas calçadas, de caminharmos sob o manto das estrelas. O passado se transforma lentamente em ilusão, e a lembrança de outros tempos soa como uma espécie de senilidade.
Caminho sob a luz do sol nas silenciosas ruas de meu bairro. Vejo belas casas. Há jardins, alguns sabiás, raros carros passando. Mas eu me pergunto quanto mais as grades terão de crescer para percebermos que tomamos um caminho errado no passado. Não, não era esse o futuro com que sonhávamos!
O presente se impõe como verdade.
Porém, algo estranho acontece. Caminho pelas silenciosas ruas de meu bairro e de repente me surpreendo com a altura das grades. Lembro subitamente de um esquecido tempo em que podíamos nos sentar na frente de nossas casas. As famílias colocavam as cadeiras nas calçadas e ficavam até tarde conversando sob a luz fraca dos postes nas quentes noites de verão. Não me lembro de grades naquele tempo. Muros, sim. Mas baixos. Não me lembro de medo. Esse tempo existiu realmente? Parece uma ilusão, o desgastado mito da idade de ouro. Mas, contra todas as evidências, minha memória resgata lembranças de uma prosaica utopia que acredito ter vivido.
As trevas não chegaram subitamente. Não houve um dia em que, por decreto, as pessoas se trancaram em suas casas. Não. O perigo foi entrando sorrateiramente em nossas vidas e, com a mesma naturalidade com que aceitamos o frio do inverno, acabamos nos acostumando com a idéia de ficar trancados dentro de nossas casas. As grades foram crescendo em volta de nós como o capim depois da chuva, silenciosamente. Hoje, contemplando o presente com a memória do passado, supreendo-me não apenas com a altura dessas pontiagudas estruturas de ferro, mas especialmente com o fato de que elas se tornaram apenas um dos muitos recursos para tentar manter distante a violência. Acima das grades, cercas eletrificadas. Nas casas, sofisticados sistemas de alarme. Nas calçadas, guaritas com vigilantes particulares. Nas ruas, carros das equipes de segurança privadas. Volto trinta anos no tempo e me dou conta de que não era nada assim. Como esperávamos que fosse o ano 2000? Como seria 2020? Estaria o mundo se preparando para uma nova era? Agora vivemos 2005, o presente nada mais é do que o futuro de outrora, e eu me constranjo em anunciar para os fantasmas do passado que não há boas novas: para crentes e descrentes, não são bênçãos que descem dos céus, mas o medo, que se precipita lentamente sobre nossas casas e vidas como o sereno de uma eterna madrugada.
Crianças e adolescentes crescem nesse cenário e devem pensar que sempre foi assim. Hoje, nós olhamos para as casas e nem reparamos nas grades que as separam das ruas; olhamos para as ruas e nem cogitamos da possibilidade de nos sentarmos nas calçadas, de caminharmos sob o manto das estrelas. O passado se transforma lentamente em ilusão, e a lembrança de outros tempos soa como uma espécie de senilidade.
Caminho sob a luz do sol nas silenciosas ruas de meu bairro. Vejo belas casas. Há jardins, alguns sabiás, raros carros passando. Mas eu me pergunto quanto mais as grades terão de crescer para percebermos que tomamos um caminho errado no passado. Não, não era esse o futuro com que sonhávamos!
6 de novembro de 2005
Viver na China
São sete da tarde em São Leopoldo, cinco da manhã em Shanghai. Aqui, primavera; lá, outono. Embora a China freqüente as páginas dos nossos jornais e revistas graças a seu espantoso crescimento econômico, pouco sabemos sobre como vivem as pessoas que estão no centro ou à margem desse desenvolvimento.
Tenho informações de que, lá, os operários trabalham 12 horas por dia, sete dias por semana, folgando apenas nos feriados e recebendo salários entre 50 e 100 dólares mensais. A atividade sindical é proibida, e aqueles que ousam fazer as mais singelas reivindicações são condenados a vários anos de prisão. Um único partido governa o país, a imprensa e a internet são censuradas. O comunismo aliou-se ao capitalismo: do comunismo, permaneceu a ditadura opressora; o capitalismo da China, por sua vez, lembra aquele do início da Revolução Industrial. Por tudo isso, não deve nos surpreender que grandes empresas do mundo todo estejam se transferindo para a China: o custo da produção é muito mais baixo num país em que, por uns poucos dólares, trabalha-se de sol a sol todos os dias da semana e onde o progresso econômico permite agressões ao meio ambiente que não são mais toleradas na maior parte do planeta. Numa economia globalizada, o milagre econômico chinês faz evaporar postos de trabalho no Brasil e em muitos outros países onde o capitalismo precisa conviver com direitos trabalhistas e legislações ambientais. Tudo indica que vai demorar muito para os chineses conhecerem a democracia, pois os ventos da liberdade colocariam em risco o lucro fácil que o capital internacional busca na China.
Para além dos fatos e das opiniões, mantém-se minha curiosidade sobre a vida daqueles que vivem nesse cenário de transformações. Procurei, nos últimos dias, livros sobre a China e encontrei publicações de dois tipos: livros que louvam o milagre econômico chinês e arriscam apresentá-lo como modelo para outras nações (ai de nós!) e livros que apresentam relatos de viagem feitas dez ou vinte anos atrás, precocemente envelhecidos frente a tão aceleradas mudanças. Foi em blogs que consegui encontrar outros olhares sobre a China: é verdade que são visões de estrangeiros, mas pelo menos são olhares contemporâneos, críticos, de gente que está lá, respirando o ar do Oriente. Um repórter do jornal francês Liberation, Pierre Haski, mantém um interessante blog jornalístico sobre a China, Mon journal de Chine - finalista de um concurso da Deutsche Welle sobre os melhores blogs jornalísticos em várias línguas. Um olhar prosaico da vida de um estrangeiro em Pequim pode ser encontrado em China Life Blog, criação de um jovem professor norte-americano, Shawn Matthews, que está há poucos meses trabalhando em uma escola na capital chinesa e conta, com textos e muitas fotos, seu dia-a-dia naquela cidade. Também recomendo um passeio pelo China Blog List.com, site com links para blogs sobre a China. Ainda estou à procura de blogs escritos por chineses em alguma língua que eu possa entender.
Para além das barreiras lingüísticas e da minha preocupação com a perversa aliança chinesa entre comunismo e capitalismo, tenho de reconhecer que é fantástico o potencial dos blogs: se conseguimos separar o joio do trigo, podemos ter contato com uma riqueza de experiências e opiniões que há pouco tempo não iam além de um estreito círculo de relacionamentos e agora se abrem para o mundo. Seria bom poder acreditar que a multiplicação e descentralização dos canais de comunicação ajudarão as causas da liberdade e da igualdade, aqui ou na China. Porém, a história da humanidade parece nos dizer que é mais recomendável um ceticismo com pitadas de esperança do que um idealismo que nega a realidade. Boa noite, Brasil. Bom dia, China.
Tenho informações de que, lá, os operários trabalham 12 horas por dia, sete dias por semana, folgando apenas nos feriados e recebendo salários entre 50 e 100 dólares mensais. A atividade sindical é proibida, e aqueles que ousam fazer as mais singelas reivindicações são condenados a vários anos de prisão. Um único partido governa o país, a imprensa e a internet são censuradas. O comunismo aliou-se ao capitalismo: do comunismo, permaneceu a ditadura opressora; o capitalismo da China, por sua vez, lembra aquele do início da Revolução Industrial. Por tudo isso, não deve nos surpreender que grandes empresas do mundo todo estejam se transferindo para a China: o custo da produção é muito mais baixo num país em que, por uns poucos dólares, trabalha-se de sol a sol todos os dias da semana e onde o progresso econômico permite agressões ao meio ambiente que não são mais toleradas na maior parte do planeta. Numa economia globalizada, o milagre econômico chinês faz evaporar postos de trabalho no Brasil e em muitos outros países onde o capitalismo precisa conviver com direitos trabalhistas e legislações ambientais. Tudo indica que vai demorar muito para os chineses conhecerem a democracia, pois os ventos da liberdade colocariam em risco o lucro fácil que o capital internacional busca na China.
Para além dos fatos e das opiniões, mantém-se minha curiosidade sobre a vida daqueles que vivem nesse cenário de transformações. Procurei, nos últimos dias, livros sobre a China e encontrei publicações de dois tipos: livros que louvam o milagre econômico chinês e arriscam apresentá-lo como modelo para outras nações (ai de nós!) e livros que apresentam relatos de viagem feitas dez ou vinte anos atrás, precocemente envelhecidos frente a tão aceleradas mudanças. Foi em blogs que consegui encontrar outros olhares sobre a China: é verdade que são visões de estrangeiros, mas pelo menos são olhares contemporâneos, críticos, de gente que está lá, respirando o ar do Oriente. Um repórter do jornal francês Liberation, Pierre Haski, mantém um interessante blog jornalístico sobre a China, Mon journal de Chine - finalista de um concurso da Deutsche Welle sobre os melhores blogs jornalísticos em várias línguas. Um olhar prosaico da vida de um estrangeiro em Pequim pode ser encontrado em China Life Blog, criação de um jovem professor norte-americano, Shawn Matthews, que está há poucos meses trabalhando em uma escola na capital chinesa e conta, com textos e muitas fotos, seu dia-a-dia naquela cidade. Também recomendo um passeio pelo China Blog List.com, site com links para blogs sobre a China. Ainda estou à procura de blogs escritos por chineses em alguma língua que eu possa entender.
Para além das barreiras lingüísticas e da minha preocupação com a perversa aliança chinesa entre comunismo e capitalismo, tenho de reconhecer que é fantástico o potencial dos blogs: se conseguimos separar o joio do trigo, podemos ter contato com uma riqueza de experiências e opiniões que há pouco tempo não iam além de um estreito círculo de relacionamentos e agora se abrem para o mundo. Seria bom poder acreditar que a multiplicação e descentralização dos canais de comunicação ajudarão as causas da liberdade e da igualdade, aqui ou na China. Porém, a história da humanidade parece nos dizer que é mais recomendável um ceticismo com pitadas de esperança do que um idealismo que nega a realidade. Boa noite, Brasil. Bom dia, China.
30 de outubro de 2005
O domingo e a segunda
É um domingo à noite, a cidade começa a dormir sem poesia ou talvez com os rastros da poesia que agora se dissolve em tua mente. A segunda-feira está logo ali, à espreita, e eu não sei o que esperas dela ou o que ela te reserva. As segundas costumam ter solidez de muralha frente aos devaneios dominicais. O ciclo de uma semana abriga toda a vida. A sexta à noite é cheia de perspectivas; é o começo de um tempo em que se tem alguma liberdade; é momento de pensar em fugas, em revoluções, em utopias. A segunda-feira consome os sonhos ou os coloca em suspensão; uma poderosa e impessoal estrutura entra em ação definindo a posição de cada um no mecanismo que faz o mundo girar. É dessa posição que se fala; é nessa posição que se age... até as dezoito horas da sexta, quando o ciclo se completa, com novas perspectivas voltando a ser vislumbradas enquanto a silenciosa máquina aguarda nossa resignada abdicação das segundas-feiras. A roda vai girando sem parar, semana após semana: um pouco de sonho, muita realidade, leveza de sonho, o peso da realidade... Presos nesse círculo, eu e tu suportamos a aspereza das segundas-feiras não apenas porque enxergamos lá à frente a suavidade das horas do começo de um outro final de semana, mas especialmente porque nada vemos além da roda em que giramos.
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